horseshoe-590480_1920-2

Quantos azares

Quantos azares se podem ter num só dia?

Hoje vou contar-vos uma história baseada em factos reais, pelo que peço a vossa atenção e sensibilidade.

Era uma vez, uma avozinha fofinha, que vivia numa aldeia muito, muito distante.

Certo dia, numa manhã enevoada acordou com uma terrível dor de dentes.

“Dor de dentes” é uma maneira de dizer, porque, na verdade, era uma dor – terrível – no único dente que ainda subsistia no seu idoso maxilar inferior.

Esta nossa avozinha dirigiu-se, como habitualmente, à cozinha, pegou na chaleira, com quase tantos anos de vida, quantos os da sua proprietária, encheu-a de água, colocou-a sobre o fogão retangular antigo, acendeu o fósforo e rodou o bico do dito fogão. Mas… não aconteceu nada. Fez mais uma tentativa, mas o resultado foi o mesmo.

C’o a breca.- Disse a senhora. – N’há gás. – Ainda voltou a tentar, mas de nada valeu. – A botije está mesmo vazia. Disse para os seus botões.

A ternurenta senhora lá teve que se contentar com um pequeno-almoço sem chá. (E pão, porque o dente não lhe deu tréguas.)

O dia estava mesmo a começar mal. Primeiro, o dente. Agora isto.

No entanto, a avozinha prosseguiu com os seus afazeres. Deixou o cão ir à rua; Pediu ao neto para trocar a bilha do gás; Pôs a conversa em dia com as vizinhas: Naturalmente queixou-se, como era de esperar, da sua pouca sorte naquele dia; Foi até à horta conferir a velocidade de crescimento das alfaces e das couves e depois, ainda hoje não se sabe como, tropeçou, não se sabe em quê e caiu toda ela sobre o seu braço direito, o que de imediato lhe provocou uma dor excruciante, que a fez esquecer por completo a dor do derradeiro dente.

São muitos azares juntos, não acham? Mas, infelizmente, não se ficaram por aqui. Atentem no que se segue:

A pobre senhora gritou por socorro e foi logo auxiliada pelos seus familiares, que com todo o cuidado a levaram ao hospital mais próximo para ser examinada e, confirmaram-se as suspeitas de todos: fratura do rádio distal.

– Pobre avozinha – tens mesmo o braço partido. Informava a neta.

– Já viste netinha, foi preciso chegar a esta idade para partir ossos pela primeira vez.

E, enquanto avó e neta se lamentavam pelo sucedido, os restantes familiares trataram das burocracias finais e já estavam em condições de levar a idosa para casa.

Eis senão quando, a azarada senhora, de braço ao peito, no curto percurso cambaleante até ao carro e ainda não habituada com a sua atual condição, pousa mal um chinelo, e, numa acrobacia tão desastrada, quanto habilidosa, estatela-se no asfalto do parque de estacionamento do hospital. Os familiares acorrem – novamente – de imediato, os enfermeiros chegam num instante, a senhora volta ao hospital e…: diagnóstico – fratura do colo do fémur.

E esta? Ele há dias assim.

Classificar

Etiquetas:



'Quantos azares' sem comentários

Escreva um primeiro comentário!


Quer deixar o seu comentário?

O seu email não será publicado.


Para mais informação contacte para o email cristina@vaidadesempreconceito.com