conhecem aquela expressão

Engolir um sapo

Conhecem a expressão engolir um sapo? Certamente conhecem.

E engolir uma mosca?

Já alguma vez vos aconteceu uma situação tão incómoda em que, por vergonha, tivessem que fazer exatamente o contrário do que é esperado fazer-se?

Certamente os meus caros leitores terão casos hilariantes de tão embaraçosos para contar, mas enquanto aguardo os vossos contributos tenho uma peripécia para partilhar convosco:

Um dia, uma pessoa que me é muito próxima contou-me o episódio que se segue.

(Francamente, não me lembro a que propósito veio o tema, mas o certo é que cada vez que penso nisso, esteja eu sozinha ou acompanhada, rio-me como uma perdida. Ora, vejam:)

– Olha – dizia-me ela – um dia, estava num jantar, cheio de gente e encontrei uma mosca na sopa. Fiquei tão incomodada que bloqueei. Não sabia o que fazer… Não queria arruinar o jantar, então e antes que alguém desse por isso, deixei-a ir na colher e comi-a, por vergonha de dizer que a tinha no prato…

Ao ouvir isto, quem bloqueou fui eu. Além de um “não!” “a sério?!” e disfarçar uma gargalhada, não me ocorreu nada para lhe responder.

Nesse dia e noutros que se seguiram, imaginei a cena mentalmente. Ora, façam comigo a reconstituição do crime:

– Imaginem-se num jantar chique, daqueles em que temos perto de uma dúzia de talheres por convidado e mais copos do que mãos (a minha amiga não quis especificar a situação, mas desconfio que não tenha ocorrido num restaurante. Parece-me que num restaurante não teria tanta delicadeza para com o chef).

Portanto, imaginem-se num jantar, nalguma festa de amigos ou talvez de apenas conhecidos, com boa conversa e uma “musiquinha” de fundo e, de repente, olham para a vossa vizinha do lado, que vos parece adotar, sem mais nem menos, um comportamento suspeito, começando a agir de forma nervosa, tal é o suor a correr em bica, desenhando o seu percurso na maquilhagem, descendo da testa até ao queixo e uma gota quase, quase a cair na sopa.

Depois, como que a acompanhar o percurso da incómoda gota de suor, por relance, olham para o seu prato e vêem a boiar, qual náufrago num mar tempestuoso, um pobre inseto indefeso. Questionam-se: Será a especialidade da noite? Não. O vosso prato só tem creme de legumes. Porém… voltam a olhar … e, de repente: zás! Já não vêem o náufrago infeliz. Pois, foi na colher misturado com o creme de legumes. E só vos apetece bater-lhe com o cotovelo e dizer: “Espera, espera. Vais engolir uma … Deixa lá, não era nada… Está boa a sopa, não está?”, mas não dizem, também já seria tarde de mais.

Então, o que vêem agora é essa vossa amiga de cabeça baixa e sobrancelhas erguidas, com as pontas do guardanapo a limpar elegante e discretamente os cantos da boca. E, com as órbitas quase a sair dos olhos, faz o reconhecimento à mesa, numa fração de segundos, olhando em toda a sua volta e: uff, até conseguem ouvir o seu suspiro de alívio, porque sinceramente acredita que ninguém a viu a banquetear-se contra a vontade com aquele ingrediente extra.

Ora bem, meus caros, numa situação destas, já não há nada a fazer. Da forma como a ocorrência me foi descrita, foi tudo muito rápido… Não ponderou mandar a sopa para trás ou simplesmente não comer mais… Podia ter feito isso, não era? Mas não! Precipitou-se e comeu a mosca. E agora? Já está, já está… Comeu, está comido. Paciência. Ir a correr à casa de banho para vomitar, é duplamente pior. (No mínimo.)

O melhor mesmo é ver a coisa pelo lado positivo: a mosca é certamente pobre em calorias e rica em proteínas.

 

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'Engolir um sapo' tem 7 comentários

  1. 17 Julho, 2015 @ 14:35 Teresa Miranda

    Ahah!! Muito bom!! Essa mosca com a sopa deve ter sido deliciosa!

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  2. 17 Julho, 2015 @ 18:56 Ana Azevedo

    A mim aconteceu-me algo parecido, mas sem sopa!! Quando era mais nova (há uns 15 anos atrás), na aldeia da minha mãe, nas férias do verão tive um namorado, o mais bonito da aldeia, e que tinha uma mota!
    Como devem imaginar, era normal na altura andar de mota sem capacete. Era o style total!! Lembro-me que nesse ano tínhamos um verão quente. Então eu, encantada com o meu novo namorado, vaidosa, aceitei o convite dele para ir dar uma volta de mota. Era um sonho!! Andar de mota com o meu namorado!! Uau, pensava eu para os meus botões!!
    Minha amiga… nos primeiros 10 minutos do passeio de mota engoli mais de 10 mosquitos, 15 moscas e outros 10 insetos que sinceramente ainda hoje não faço a mínima do que seriam… a minha testa parecia um pára brisas…
    Eu envergonhada tentava limpar a minha testa sempre que conseguia e engolia todo o tipo de insetos que entravam na boca para que ele não desse por nada… O amor é cego!!
    Quando terminámos a volta de mota, a histórica volta, faz-me a pergunta obvia!!! Se eu gostei!!???
    Lembro-me ter respondido: Claro, Adorei!!! Foi o melhor passeio da minha vida… até parecia um piquenique!!!
    Desde então, nesse verão quente, tentei tudo para que ele não me voltasse a convidar a andar novamente na sua mota… imaginem que até tinha pesadelos com o raio da mota!!!

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    • 17 Julho, 2015 @ 19:27 Cristina dos Santos

      Deixe lá. Pense nas proteínas.

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      • 31 Julho, 2015 @ 11:11 Força nas Proteínas

        E eu preocupada por ter comido uma simples e singular mosca.
        Cara Ana Azevedo, o seu banquete foi bem mais vasto e requintado.
        Temos que pensar em formar um clube, o Clube dos Comedores de Insectos Por Amor!

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  3. 5 Agosto, 2015 @ 20:55 Selma Cardoso

    LHAC! Perdi a vontade de comer sopa…
    Agora a sério: aqui há uns dias um amigo me disse que quando era pequeno a mãe o obrigava muitas vezes a comer uma sopa à qual ele dava o nome de “sopa de ciscos”. Só anos mais tarde é que descobriu que eram “bichinhos” das couves. Portanto, acho que conheço um bom membro para o vosso Clube que também se pode chamar “Clube das Moscas Mortas”. Carpe Diem!!!

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