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Sobre a morte

Sobre a morte

Sobre a inevitabilidade da morte, o medo e a angústia que ela cria…

Sim eu sei que a morte é um tema “demasiado” pesado e alguns leitores questionarão porque pensar sobre isso, mas, a verdade é que o ser humano mesmo não querendo vive isso desde que nasce e, pensa sobre isso desde a mais tenra idade, criando ansiedade e receios ao longo de toda uma vida, embora cada pessoa viva e sinta o medo da morte à sua maneira.

A ansiedade de morte, a consciência da finitude e o sofrimento que esta acarreta vai e vem ao longo do ciclo de vida.

As crianças desde muito cedo se apercebem dos sinais da mortalidade que encontram em seu redor, as folhas que caem, os insetos que se matam, os animais de estimação que morrem, avós que desaparecem, pais em luto, cemitérios e suas campas, notícias que bombardeiam com mortes a todo instante. As crianças podem observar e questionar, ou, seguindo o exemplo da maioria dos pais simplesmente optar por ficar em silêncio. Se expressam a sua ansiedade abertamente os pais ficam muitas vezes incomodados ou atrapalhados e acorrem a sossega-los. Por vezes os adultos ficam tão ansiosos que não sabem que palavras reconfortantes dizer e transferem o assunto para um futuro distante, ou acalmam a ansiedade da criança e sua com histórias que negam a morte, como a ressurreição, a vida eterna, o paraíso ou a possibilidade de um reencontro. Muitos são os que usam a estratégia da estrelinha que está lá em cima a olhar por eles, mas pensem, se por exemplo o avô que morreu se tornou uma estrela, quando olha para o céu e vê tantas outras estrelas a brilhar são o quê? Os avós dos seus amiguinhos? Antes de se arranjar uma estratégia é pertinente perceber como percebem e encaram eles a morte, muitas crianças têm já uma ideia fundada e por vezes simples e até tranquilizadora.

Por volta dos 6 anos até à puberdade o período a que Freud chamou de latência (pois para ele as questões da sexualidade ficam em suspenso), o medo da morte fica como que, à semelhança das questões da sexualidade em suspenso, ocultado no inconsciente sem que seja abordado ou uma preocupação que gere grande ansiedade; este volta a surgir em força na adolescência, aí, a angústia de morte, preocupações e dúvidas existenciais tomam proporções gigantes, a consciência da própria mortalidade pode ser uma sombra assustadora; sendo que alguns consideram mesmo o suicídio como uma espécie de alívio imediato. Muitos adolescentes de hoje em dia respondem a esta ansiedade tornando-se mestres no assunto, nas suas vidas paralelas, nos jogos mais violentos de consola, outros desafiam-na com experiências limite (colocando-se em perigo), humor negro, canções provocadoras, filmes de terror etc.

À medida que os anos vão passando os medos da morte por parte do adolescente vão desaparecendo, vão ficando “debaixo do tapete” porque a sua vida de jovem adulto obriga a duas grandes tarefas muito exigentes em termos de atenção e disponibilidade, o começar de uma carreira e o construir de uma relação mais estável e familiar, cerca de três décadas mais tarde, quando os filhos saem do ninho e o final da vida profissional se aproxima, a chamada “crise de meia-idade” rebenta com violência e cada vez mais a ansiedade de morte entra em erupção, desta vez com mais impacto e também consequências sobre o sentido da vida até aqui vivida e novas perspectivas para o tempo que consideram ainda poderão ter e como o aproveitar ao máximo. Muitas vezes este “enganar” da finitude passa por procurarem parceiros mais novos por forma a sentirem-se também eles no auge da vida.

Atingindo o cume da vida activa, depara-se-nos um caminho que nos espera que já não será a subir, ma antes a descer na maioria dos campos, embora se possa encontrar outras benesses neste período, mas, a consciência da morte, as preocupações com esta tornam-se uma sombra cada vez mais presente no pensamento e, quando negado ou evitado uma verdadeira angústia sem nome.

Como não é possível vivermos congelados com o medo do inevitável criamos estratégias para suavizar este terror, projetamo-nos no futuro através dos nossos filhos, do sonho da riqueza, da fama, do sucesso, desenvolvemos rituais de proteção, foge-se da dolorosa separação da morte através da fusão com a pessoa amada, ou novas relações mais joviais, une-se a uma causa, à comunidade ou abraçamos uma crença inexpugnável num salvador supremo, um ser Divino que possa agraciar o crente com a promessa de uma vida eterna dando um certo sentido à vida e apaziguando a dor da mortalidade.

Mas, apesar das mais variadas e respeitáveis defesas de que o ser humano se mune, mesmo os mais crentes, é impossível mentir-se à parte mais profunda de nós mesmos e como tal, dificilmente se consegue dominar por completo a nossa ansiedade de morte, ela acaba por estar lá disfarçada num canto escuro da nossa vida mental.

Quero chamar à atenção de que, o medo da morte pode criar problemas que à primeira vista podem dar a impressão de não estar diretamente relacionados com a mortalidade; embora possa ser algo aterrador e imobilizante para algumas pessoas, a verdade é que para a maioria das pessoas está encoberto, sendo expresso por sintomas que aparentemente não estariam correlacionados, sendo que o self é exímio em reprimir a consciência da sua natureza finita, aí torna-se essencial procurar ajuda profissional para entender os sinais e sintomas e poder fazer um processo de análise e apaziguamento do sofrimento implícito.

A pergunta que se coloca neste momento ao leitor é, será que podemos trabalhar esta angústia, poderemos combater este terror de alguma forma? Sim, pode-se, e deve-se combater, porque embora a morte física seja algo extremamente destruidor a ideia sobre a mesma pode tornar-se algo de imenso valor na vida, isto é, poder pensar, refletir sobre a morte pode trazer um novo sentido à vida, permitir viver num plano mais enriquecedor e gratificante, podendo aplicar-se estratégias práticas de coping, de sinergia para o dia-a-dia, permitirá viver em, e (com)paixão. Encarar a finitude e tantas vezes a insignificância do ser humano no universo dissipa o medo da mesma e acrescenta qualidade de vida e significado à sua existência.

 Espero que esta partilha o tenha ajudado a reflectir e encontrar algum reconforto o seu significado, numa próxima partilha abordarei a questão do luto, o processo e a dor associadas.

Elisabete Correia, EcPsis

 

 

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