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Porque somos negativos

Porque somos negativos

Há já algum tempo escrevi aqui no blog um artigo sobre os cumprimentos dos tempos modernos. Nesse artigo debrucei-me sobre a forma como nos cumprimentamos hoje em dia, quando nos cruzamos com algum amigo ou conhecido na rua, mas não chegamos a parar. Dizemos o “olá, tudo bem” e seguimos a nossa vida.

Ora bem, o tema de hoje não é sobre estes encontros imediatos, mas sim sobre momentos mais longos, em que compartilhamos com outra pessoa mais do que 5 minutos do nosso dia.

Nesses momentos, em que chegamos mesmo a parar, damos dois beijinhos e/ou um aperto de mão, é usual perguntar se está tudo bem, ou o que o outro tem feito/ como corre a vida / como está essa saúde. Nesses casos é frequente, em vez do “está tudo bem” responder-se:

  • Vai mal. Ando lixado das costas, ou
  • Vai mal e este tempo também não ajuda;
  • Vai mal e o governo que nos fica com tudo;

Quer dizer, apesar de poder efetivamente ser tudo verdade, muitas vezes há também muitas coisas boas, mas que nestas alturas parecem não ter importância, ou que não vale a pena falar nelas. O que interessa é falar das más e esperar que as novidades do amigo sejam similares ou piores.

E o amigo, que não quer ser desmancha-prazeres responde com novidades mais tristes e/ou mais graves. E assim, se começa uma boa conversa. Talvez por uma questão de empatia, solidariedade, ou simplesmente curiosidade (e alguma satisfação patológica) em saber que há sempre casos piores do que os nossos.

Pois é. O que tenho verificado é que há um forte interesse humano por tudo o que é triste e deprimente. O que não entendo muito bem. Pois, é um facto indubitável que as pessoas alegres são mais atraentes e mais interessantes do que as tristes. Mas isso pouco importa. O que interessa mesmo é mostrar a tristeza ou, para ser mais clara, há uma tendência humana para a “exibição” e para o enfatizar da tristeza.

Parece que existe mais “à vontade” para demonstrar sentimentos de tristeza do que de alegria. Como se houvesse pudor em mostrar a felicidade, enquanto que, quando se trata de tristeza ou insatisfação parecemos não hesitar. (Estamos sempre prontos para reclamar do atendimento num serviço qualquer, mas fazer um elogio? Isso é que é difícil.)

Por outro lado, quantas vezes parámos para ouvir relatos trágicos de acontecimentos tristes, violentos ou calamitosos? Ou quantas vezes parámos para ler mais um pouco do que as letras gordas de uma notícia só porque se refere a um destes temas?

Há dias circulava uma notícia a dizer que não sei quem estava doente. Afinal de contas, ao que parece, o indivíduo não estava mesmo doente. Era uma brincadeira, para chamar a atenção.

Na mesma página estava uma notícia a informar que não sei quem estava encantada com não sei o que. Ora bem, não sei se estava ou não porque não li. Entendem?

Na verdade, penso que se trata de um hábito. Não nos interessamos apenas pela tristeza dos outros. Também temos o hábito de divulgar a nossa.

O que podemos concluir é que seja em relação à saúde ou ao dinheiro, o que importa é dizer que há pouco de ambos. Mesmo que haja os dois em abundância ou, pelo menos, em quantidades razoáveis, dado que em abundância não é fácil…

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