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Os bebés não guardam rancores

Os bebés não guardam rancores

Numa destas manhãs, a azáfama cá em casa era grande, como, aliás, são todas as manhãs e os fins da tarde.

Na tal manhã, o nosso mais velho tinha que chegar mais cedo à escolinha, porque ia haver passeio.

Toda a semana se falou no passeio e na véspera mais ainda. – “Hoje não posso ir tarde para a cama, porque amanhã tenho que acordar mais cedo”, blá, blá, blá.

Chegado o ansiado dia, preparámos os babys mais cedo (sim, porque o mais novo, apesar de não ir ao passeio, também entrou mais cedo, para evitarmos outra viagem). Ora bem, despachámo-nos a arranjá-los: “Porque hoje há passeio. Vai ser muito divertido. Vai ser um espetáculo muito giro. Vais andar de autocarro. Que bom, iupi… etc, etc”

Entretanto o pai, que nesse dia os levava ao infantário, já tinha planeado a sua agenda matinal e não havia margem para atrasos.

Porém, sucede que, no preciso momento em que se preparavam para sair, (aliás, o pai e o mais novo já tinham atravessado a porta) naquele preciso momento em que esperava que o menino me desse um beijo de despedida e saísse, vira-se para mim e diz: – “Mamã, afinal não posso ir ao passeio. Estou doente. Estou a ficar constipado. Olha, não vou.” E simulou uma tosse.

Quer dizer, aquele pouco mais de um metro de gente, dz-me isto com um ar sério e decidido como se fosse senhor do seu pequeno e jeitoso nariz.

Mas qual doente, qual quê? Era fita. Quer dizer, falar tanto no passeio, tanto iupi e tanto yes, deve ter gerado um misto de ansiedade e receio, que mexeu com a disposição do petiz.

Ora bem, a hora marcada já estava próxima, mais um pouco e chegavam atrasados. Nós insistíamos que tinham que sair: Entre “vá lás, que vamos chegar atrasados” e outros argumentos frustrados para o convencer a sair, a paciência começava a diminuir e o esforço não estava a resultar, pois não havia maneira de o fazer atravessar a porta.

De repente, o pai, pressionado pelo relógio e já “passado dos carretos” diz-lhe, num tom forte e bem alto: “já na minha frente” e aponta-lhe o dedo a mostrar-lhe a saída. O pequeno, muito ofendido com a ousadia do pai, desata aos prantos e, contra a vontade, lá foi em sentido. (Claro está, que pouco depois de entrar no carro, a birra passou com uma ou outra piada ou brincadeira e já nem havia memória do sucedido há minutos).

Logo que pude, liguei ao meu marido a perguntar o desenlace da situação, que me contou o que acabei de vos dizer, acrescentando: “coitadinho, fui mau para ele”. “Deixa lá, isso passa. Ele estava a precisar”, respondi-lhe.

A verdade é que estas coisas doem-nos mais a nós do que a eles. Se não, vejamos:

À noite, o pai, arrependido perguntou-lhe: “De manhã, o papá foi mauzinho para ti, não foi?” Ao que ele respondeu: “Quando?”

É evidente que já nem se lembrava. Já tinha mesmo esquecido o episódio. O que ele queria era contar o que tinha feito e como o passeio tinha sido divertido.

Pois é, por vezes esquecemos que ainda são bebés. E os bebés não guardam rancores!

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